Thursday, June 22, 2006

CRIANÇA TEM QUE SOFRER ?

Esta é a pergunta que faço todos os dias. Pergunto a mim mesma, pergunto aos amigos, companheiros de luta, aos militantes de inúmeras causas. Criança tem que sofrer ? Claro que ninguém responde que sim, que criança deve sofrer por ser apenas o inicio da viagem do ser humano , por si só solitária , em sua eterna busca. Mas existem sofrimentos que me incomodam bastante pois que me sinto com a culpa do mundo, embora compreenda plenamente que o mundo é grande e afinal eu sou apenas uma partícula deste processo que envolve vida e morte. Tenho portanto todas as limitações e me destituo de arrogância para envolver a relação culpa e poder. De fato somos todos culpados. Ou seremos adultos inocentes e portanto pacificados frente as responsabilidades pessoais e coletivas. Cada qual que se encaixe e busque seu dilema. O meu mais imediato impulso é desejar entender porque os pacientes em déficit mental são tão discriminados.
Vejamos este caso: uma criança que apresenta TDAH – Transtorno Déficit Atenção Humana com hiperatividade e/ou desatenção exige extremamente da família. Geralmente, um dos pais abdica da vida profissional para cuidar do filho. E começa a peregrinação para chegar-se a um diagnostico e a um tratamento. Em outras ocasiões a família se desfaz , a família não suporta o peso, fica com a criança o mais corajoso, o que deixa prevalecer o amor. Mas em sociedade onde o capitalismo selvagem impera, somente amor não basta, é preciso dinheiro, muito dinheiro para dar conta de tantas exigências.
Como o tratamento deve ser plural, interdisciplinar, fica impossível para as famílias de baixa renda, e de classe média, se é que isso ainda existe, comprometer parte do tratamento. Na nossa Constituição esta previsto que Saúde é dever do Estado propiciar, garantir, assegurar. Também esta dito que Educação e Segurança são deveres do Estado. Cresci acreditando na utopia de ver uma sociedade igualitária. Cada vez estou vendo o outro extremo. E não participo disto à distancia não, vejo no batente diário. Falávamos de crianças e sofrimento. Volto a isto. Uma das crianças assistidas pela Fundação Maria Lúcia Jaqueira de Mattos não encontrou qualquer possibilidade de atendimento odontológico por ser portador de déficit mental. Não encontrou qualquer unidade hospitalar que o aceitasse. Em situação de extremo abandono odontológico pode-se inicialmente culpar a família ; em seguida, poderemos dizer que os profissionais que o viram poderiam ter feito um encaminhamento para uma unidade hospitalar capacitada antes que as conseqüências fossem maiores; verifique-se as condições do município que ele vive que nada oferece e faz parte deste paraíso chamado Bahia.
Quando chegou a Salvador, já com os dentes em estágio avançado de caries, com dores violentas causadas pela exposição das partes mais sensíveis, já não podia beber água nem comer. O resultado foi a desidratação, a desnutrição e a dor. Peregrinamos por aqui também. Ele agora esta internado, mas não para tratar os dentes e sim de uma infecção generalizada. Quando termino de escrever este cotidiano tenho dúvidas quanto as possibilidades de sobrevivência. Mas estou torcendo por um final feliz. Afinal, aqui no Brasil parece que estamos destinados a sermos torcedores de uma Pátria amada, idolatrada mas desrespeitada diariamente pelas ações de todos, diretamente ou indiretamente envolvidos nas questões que envolvem a sociedade. Chegamos em um momento em que as organizações não governamentais tem mais confiabilidade que qualquer organização publica. Que a boa vontade do cidadão e mais forte do que as exigências legais. O voluntariado deve prevalecer, somar para encontrar soluções, saídas, caminhos, e sobretudo não se deixar vencer pelo pessimismo de muito e do otimismo e riso cínico dos guardiães do capitalismo.
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Vera Mattos - Jornalista/Psicanalista. Presidente da Fundação Maria Lúcia Jaqueira de Mattos. Artigo publicado na Tribuna da Bahia. e-mail: fundacaojaqueira@yahoo.com.br

1 Comments:

At Monday, 24 July, 2006, Anonymous Anonymous said...

Vera, um caso como o que você
descreve na mensagem deve ser levado ao Ministério Público. Acredito naquela
instituição - aliás, nós precisamos acreditar no MP. Mais do que acreditar,
precisamos demandar o MP, provoca-lo em situações como essa. Uma unidade do
serviço público NÃO PODE, em hipótese alguma e sob qualquer pretexto, negar
atendimento. Não é um problema de sensibilidade, mas do exercício de um
direito. Sei de casos em que o MP agiu rapidamente. Vale a pena
experimentar. Uma sugestão: um estagiário de Direito poderia ajudar
bastante. Caridade e voluntarismo fazem muito bem, mas não resolvem tudo e
as vezes nos deixam em situação de impotência. Nessas horas, ainda que
quixotescamente, é preciso apelar para o Direito. Precisamos
desesperadamente dar vida às instituições. Do contrário elas continuarão
sendo um grande faz-de-contas. É um processo lento e que nos exige grande
dose de resignação pela fé nos homens. Talvez os netos de Andrea vejam um
País mais justo com o nosso povo. Mas isso só vai acontecer se a gente
começar a construir, com muita fé, um Brasil que a gente sabe que não verá.

ERNESTO MARQUES

 

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